Nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, a mando do presidente Harry Truman, os EUA despejavam duas bombas nucleares sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Fat Man e Little Boy, os dois únicos artefatos nucleares a serem detonados em cidades povoadas em toda história humana, selaram o destino da Guerra que se arrastava desde 39 e que culminaria em um novo alinhamento do mundo, agora sob uma ótica bipolar.
Quase 70 anos depois, algoz e vítima são aliados geopolíticos, têm agendas comuns que se iniciaram na ocupação norte-americana do arquipélago nipônico e transformaram a história americana e japonesa de forma definitiva. Uma das principais colaborações entre nipônicos e yankees foi o Plano Colombo, uma versão do plano Marshall, que consistiu de uma série de empréstimos em moeda americana a ser utilizada na reconstrução dos países arrasados pela Guerra. As primeiras sacas de dinheiro chegariam ao Japão nos anos 50 e permitiram o lento e gradual remodelamento da economia japonesa.
É das coisas mais complexas de entender os motivos que levaram o Japão desistir de seu imperialismo local e militarista, que teve efeitos que ainda são sentidos no rancor regional cultivado por seus vizinhos. É tarefa complexa entender como se tornar o maior - e talvez único - aliado de quem matou parte de sua população com o uso de uma tecnologia desumana e que condenou, em um país de território relativamente modesto, mas de população razoavelmente grande, extensões de terra e estruturas produtivas significativas à desocupação.
A resposta não é simples mas tem a ver com o entendimento pelos japoneses de que este - a aproximação com os EUA - talvez fosse o melhor caminho a se seguir. A ocupação militar do Japão pelos americanos e a dissolução das forças militares locais também podem ter contribuído nesta compreensão. A ajuda financeira e os projetos de investimento na economia do país antes aliado de Eixo também são boas fontes de auxílio na resposta à pergunta proposta: como tornar-se amigo de quem te fez tão mal?
Depois do jogo entre Brasil e Alemanha começaram a pipocar na internet mensagens carinhosas dos algozes da tragédia do Mineirão. Muitos jogadores e a própria federação alemã de futebol, ao verem o estrago na moral dos brasileiros pós-7x1, postaram frases motivacionais, afagos eletrônicos diversos, mensagens que buscavam reparar ou amenizar um pouco do impacto causado pela partida que pode ter redefinido o futebol brasileiro.
Se as bombas sobre o Japão levaram à rendição incondicional dos asiáticos e ao plano Colombo, bem como a ocupação pelos EUA levaram o país a um novo patamar industrial, econômico e financeiro - não sem muito esforço próprio, diga-se - as mensagens dos jogadores germânicos foram auxílio ao destroçado emocional nacional. Com a vantagem que não demoraram quase 5 anos para serem recebidas.
Este plano Colombo, talvez mais bem apelidado de plano Müller, ou Schweinsteigner, ou ainda Löw, talvez não nos traga conforto emocional e uma recomposição da até então elevada moral tupiniquim. Mas, talvez, como no caso japonês, possamos aprender com os alemães como modernizar em termos táticos, técnicos, políticos e financeiros o esporte mais praticado no País, bem como transformar o tirânico ambiente futebolístico nacional - que se não é causa do fracasso, nunca contribuiu para o sucesso - em uma estrutura mais produtiva, que respeite as tradições e a cultura nacionais, sem perder o olhar no horizonte futuro, nas inovações técnicas, e que fuja da criação de problemas insolúveis que sempre foram apontadas como raízes dos insucessos do futebol por aqui, e que foram usadas como desculpas eternas para a estrutura desigual e deficitária de clubes e federações.
À semelhança de muitos diagnósticos sobre nossas derrotas - sempre velozes, insolúveis - a mitologia moderna japonesa sempre criou ameaças externas que destroçavam o coração de grandes cidades daquele país e sugerem ainda que remotamente o trauma das bombas que caíram naqueles dias de agosto de 1945. Talvez, em todas as nossas derrotas ecoem ainda o silêncio de 50, ou choro de 82. Alternamos, por aqui, entre a euforia insana e o desespero raivoso, sabe-se.
Pense em todos os seriados de nossas infâncias. Tóquio era destroçada semanalmente e talvez fosse a cidade onde nenhuma seguradora no mundo quisesse abrir filais - falência certa à espera. No entanto, estes monstros da mitologia japonesa nunca impediram a busca da solução de problemas pontuais e do aperfeiçoamento da estrutura produtiva daquele país e de seu avanço. O medo da ameaça externa é componente essencial, aliás. Com tudo isto, a sociedade japonesa, embora ávida consumidora de elementos da cultura ocidental - sobretudo da norte-americana - manteve em seu cerne elementos fundamentais e históricos pertencentes à alma do país que acorda antes de nós irmos dormir. O Japão não deixou de ser Nihon no pós-1946. Apenas aprendeu a ser uma pátria mais harmônica com o avanço humano.
Talvez nosso trauma de 2014 seja o ponto de divisão entre um país feudal em sua estrutura futebolística, atrasado técnica e tecnologicamente, seriamente dependente de financiamento público do seu esporte preferido e a revolução que se diz ter sido operada na Alemanha a partir de 2006. Talvez assim como a turma do leste asiático, possamos com ajuda de alguém que hoje dispõe de caminhos mais avançados e à frente deste País em tantos campos - e não apenas naquele delimitado por 4 linhas - aprender com nossos erros, crescer e, respeitando nossa cultura - fonte de nossa identidade maior, o esporte que nasceu inglês e vive por aqui - nos tornarmos melhores futebolistas brasileiros.
À semelhança do esforço japonês pós-1945, que pouco tempo após o trauma decidiu seu caminho à frente para os 70 anos que se seguiriam, também podemos nos recuperar. Haverá outras Copas e a tragédia de BH pode, com o perdão da comparação rasteira, ser nossa Hiroshima. O que faremos dela, no entanto, pode ser à semelhança do que fez o Japão. O plano Müller já está aí, aliás.
Thursday, 10 July 2014
Tuesday, 1 July 2014
Eu queria ser de direita
Eu queria ser de direita. Acordei um dia e tinha certeza que era a hora. Fui à padaria, pedi pão francês, três, com dinheiro de sempre e descobri que só dava para comprar dois. Maldito governo que deixa que a gente pague mais caro no pãozinho de manhã. Se o mundo fosse de direita, duvido que isso acontecesse. Preços livres não sobem.
Comi dois pães, reclamei do governo, reclamei do português da padaria que ficava aumentando o preço do pão e reclamei de novo do governo que deixava que ele lucrasse em cima de mim.
Eu queria ser de direita, e depois do café, com dois e não três pãezinhos, saí de casa para a faculdade em que eu estudava. Peguei ônibus e fiquei puto. Vi que os moleques do colégio municipal entravam sem pagar - o governo acha que as pessoas que estudam numa escola assim, desafortunadas que já são, têm direito à passagem gratuita. Inacreditável.
Eu também não pagava faculdade, mas pagava o ônibus, que só não tinha aumentado por causa dos protestos que eu tinha ido, e pagava plano de saúde, porque o governo não me garantia que caso eu ficasse doente não parasse no Sus.
Lembrei disso e reclamei. Já eram duas, hospitais e pãozinho mais caro. O Governo culpou a Argentina que não dava conta da demanda de trigo, o que aumentava o preço da farinha, que aumentava o do pãozinho. Reclamei da demanda, do preço, da Argentina, do Governo, da inflação, do pãozinho - comecei a achar ruim - do hospital e do plano de saúde - que também ia aumentar o preço, eu sabia.
Entrei na faculdade com a certeza que ia ser aquele o dia para ser de direita. Já tinha visto que o governo que não produzia trigo deixou o português repassar o aumento do preço da farinha da Argentina para o pão francês que eu como todo dia. O salário, todo mundo sabe, não aumenta nunca - eu não trabalho, mas meus pais sim.
E tinha o plano de saúde, que meu pai paga, porque o governo não tem hospital decente. É demais. Ele ainda paga um monte de imposto, vê se na Suécia, na França é assim. E ainda estudo em uma faculdade pública - que não tem computador nem ar condicionado.
Depois da segunda aula, que matei tomando cerveja no bar da faculdade - caro, uma cerveja a 8 pila - culpa do dono, aquele espanhol safado, com aquele cabelo sebento - eu já era de direita.
Na aula de história do colégio, aprendi que a gente chamava de direita quem sentava à direita na assembleia nacional, na primeira fase da revolução francesa - eu era bom em história, por isso fiz comunicação. Era uma galera que já tinha ideias de livre mercado, livre iniciativa, acreditava que a burguesia, e não a realeza, conduziria a França a um destino melhor, com igualdade, liberdade e fraternidade. Ou algo assim. A realeza era tipo o governo.
Todo mundo na França pagava impostos altos para sustentar o Rei que não fazia nada. É tipo o governo, só que hoje tem mais corrupção.
Então eu sabia, eu era de direita. O governo só me atrapalhava.
Depois de umas cervas, de enganar o otário que trabalhava no balcão dizendo que bebi só duas, fui no shopping ver o preço do novo vídeo game que eu queria comprar. Sabia, olha lá, muito mais caro que nos Estados Unidos. Vou ver quanto que é na internet. Ah, lá fora é metade do preço. É uns 700 dólares. Dá para trazer na mala tranquilo, é só dar sorte na alfândega.
Aqui, eu sabia, custa muito mais por causa do imposto que o governo cobra para custear a mordomia dos políticos. Se não, por que é tão caro? Aliás, aqui tudo é caro, a inflação que o governo não controla só faz meu pai reclamar. E eles mentem, você vai no supermercado, no bar, na loja de roupa, tudo é caro, cerveja gringa é carão, cinema, tudo é caro aqui. Nem saber controlar o preço o governo sabe.
Não entendo como tem tanto mendigo na rua com tudo tão caro. Qualquer um ganha dinheiro fácil nesse país. Meu pai reclama que a empregada hoje só quer trabalhar 8 horas, que o pintor cobrou uma nota para fazer dois cômodos pequenos e que nem vai dar para viajar para fora este ano - tudo está caro. Deste jeito vou ter de pedir alguém para trazer o vídeo game.
Eu acordei de manhã e decidi ser de direita. Ao longo do dia fui ficando puto com o governo que deixava a Argentina entregar pouco trigo, que fazia a farinha de fazer pãozinho ficar cara, custo que o português da padaria repassava para o preço que me fazia comprar dois e não três pãezinhos. Depois fiquei nervoso com o preço da cerveja na faculdade - deve ser feita de trigo - com os moleques entrando pela porta da frente do ônibus porque estudam em colégio público - eu estudo em faculdade, devia ter esse direito - com o plano de saúde que meu pai pagava e tinha fila e ia aumentar a mensalidade, com o preço do vídeo game, com o pedreiro que cobrava caro, com o mendigo que perdia tempo e não ficava rico vendendo tudo que estava caro - e com tanto emprego aí - com o governo que congelava os preços deixando tudo caro, com o preço de viajar, com a empregada que não quer trabalhar depois das seis, com o garçom do bar da faculdade que não acreditava que eu tinha tomado duas em vez de quatro cervejas - se ele fosse bom de matemática, não trabalhava para aquele espanhol de cabelo sebento.
Naquele dia, eu decidi ia ser de direita. Só precisava saber o que fazer com isso.
Comi dois pães, reclamei do governo, reclamei do português da padaria que ficava aumentando o preço do pão e reclamei de novo do governo que deixava que ele lucrasse em cima de mim.
Eu queria ser de direita, e depois do café, com dois e não três pãezinhos, saí de casa para a faculdade em que eu estudava. Peguei ônibus e fiquei puto. Vi que os moleques do colégio municipal entravam sem pagar - o governo acha que as pessoas que estudam numa escola assim, desafortunadas que já são, têm direito à passagem gratuita. Inacreditável.
Eu também não pagava faculdade, mas pagava o ônibus, que só não tinha aumentado por causa dos protestos que eu tinha ido, e pagava plano de saúde, porque o governo não me garantia que caso eu ficasse doente não parasse no Sus.
Lembrei disso e reclamei. Já eram duas, hospitais e pãozinho mais caro. O Governo culpou a Argentina que não dava conta da demanda de trigo, o que aumentava o preço da farinha, que aumentava o do pãozinho. Reclamei da demanda, do preço, da Argentina, do Governo, da inflação, do pãozinho - comecei a achar ruim - do hospital e do plano de saúde - que também ia aumentar o preço, eu sabia.
Entrei na faculdade com a certeza que ia ser aquele o dia para ser de direita. Já tinha visto que o governo que não produzia trigo deixou o português repassar o aumento do preço da farinha da Argentina para o pão francês que eu como todo dia. O salário, todo mundo sabe, não aumenta nunca - eu não trabalho, mas meus pais sim.
E tinha o plano de saúde, que meu pai paga, porque o governo não tem hospital decente. É demais. Ele ainda paga um monte de imposto, vê se na Suécia, na França é assim. E ainda estudo em uma faculdade pública - que não tem computador nem ar condicionado.
Depois da segunda aula, que matei tomando cerveja no bar da faculdade - caro, uma cerveja a 8 pila - culpa do dono, aquele espanhol safado, com aquele cabelo sebento - eu já era de direita.
Na aula de história do colégio, aprendi que a gente chamava de direita quem sentava à direita na assembleia nacional, na primeira fase da revolução francesa - eu era bom em história, por isso fiz comunicação. Era uma galera que já tinha ideias de livre mercado, livre iniciativa, acreditava que a burguesia, e não a realeza, conduziria a França a um destino melhor, com igualdade, liberdade e fraternidade. Ou algo assim. A realeza era tipo o governo.
Todo mundo na França pagava impostos altos para sustentar o Rei que não fazia nada. É tipo o governo, só que hoje tem mais corrupção.
Então eu sabia, eu era de direita. O governo só me atrapalhava.
Depois de umas cervas, de enganar o otário que trabalhava no balcão dizendo que bebi só duas, fui no shopping ver o preço do novo vídeo game que eu queria comprar. Sabia, olha lá, muito mais caro que nos Estados Unidos. Vou ver quanto que é na internet. Ah, lá fora é metade do preço. É uns 700 dólares. Dá para trazer na mala tranquilo, é só dar sorte na alfândega.
Aqui, eu sabia, custa muito mais por causa do imposto que o governo cobra para custear a mordomia dos políticos. Se não, por que é tão caro? Aliás, aqui tudo é caro, a inflação que o governo não controla só faz meu pai reclamar. E eles mentem, você vai no supermercado, no bar, na loja de roupa, tudo é caro, cerveja gringa é carão, cinema, tudo é caro aqui. Nem saber controlar o preço o governo sabe.
Não entendo como tem tanto mendigo na rua com tudo tão caro. Qualquer um ganha dinheiro fácil nesse país. Meu pai reclama que a empregada hoje só quer trabalhar 8 horas, que o pintor cobrou uma nota para fazer dois cômodos pequenos e que nem vai dar para viajar para fora este ano - tudo está caro. Deste jeito vou ter de pedir alguém para trazer o vídeo game.
Eu acordei de manhã e decidi ser de direita. Ao longo do dia fui ficando puto com o governo que deixava a Argentina entregar pouco trigo, que fazia a farinha de fazer pãozinho ficar cara, custo que o português da padaria repassava para o preço que me fazia comprar dois e não três pãezinhos. Depois fiquei nervoso com o preço da cerveja na faculdade - deve ser feita de trigo - com os moleques entrando pela porta da frente do ônibus porque estudam em colégio público - eu estudo em faculdade, devia ter esse direito - com o plano de saúde que meu pai pagava e tinha fila e ia aumentar a mensalidade, com o preço do vídeo game, com o pedreiro que cobrava caro, com o mendigo que perdia tempo e não ficava rico vendendo tudo que estava caro - e com tanto emprego aí - com o governo que congelava os preços deixando tudo caro, com o preço de viajar, com a empregada que não quer trabalhar depois das seis, com o garçom do bar da faculdade que não acreditava que eu tinha tomado duas em vez de quatro cervejas - se ele fosse bom de matemática, não trabalhava para aquele espanhol de cabelo sebento.
Naquele dia, eu decidi ia ser de direita. Só precisava saber o que fazer com isso.
Tuesday, 24 June 2014
O mundo em 7 ou 6 colunas
Quando eu era pequeno - não que hoje eu seja grande - não existia internet. Juro. Aliás, não havia um monte de coisas: celular, televisão a cabo, pouca inflação - havia muita. E isto tudo foi há pouco mais de 20 anos.
Jornal era coisa de fim de semana - no distante bairro com dois nomes, onde não havia assinatura, também não havia banca. Em um tempo onde ecologia não era assunto - o jornal já tinha direito a reciclagens: fundo de gaiola do passarinho, embrulho de peixe na feira e de frango no aviário aos domingos, chapéu, gaivota, aviãozinho, rabiola, barco e, função principal, portador de novidades e companheiro de descobertas de um mundo que ficava do portão para lá, além do jardim, depois da estação que levava-nos do subúrbio em que faltava água e luz para o deslumbramento da Central, a dos meninos de rua cheirando cola, da Presidente Vargas, do carnaval da Rio Branco, e às vezes para Madureira, para a feirinha da Pavuna, onde, sabe-se, houve uma grande confusão.
Naquele tempo, se parafraseasse o livro mais vendido de todos os tempos, inclusive daquele, o Brasil, em ritmo de democratização e em clima de ressaca moral futebolística e política, ou melhor, o Brasil que eu via e lia nos jornais naqueles fins de semana e na tv de 6 canais - podendo chegar a 7 com ajuda da geografia e do bombril - já tinha muitos mi(ni)stérios. Tinha inflação bem pior que a atual e aparentemente irrefreável - um dragão, dizia-se, que comeria o valor das minhas moedinhas tal qual comunistas deviam fazer então com os meninos de outros subúrbios de nomes estranhos no tal Leste Europeu. Ali, portanto, éramos não-comunistas.
Havia uma dívida externa impagável - e existiam planos de quitá-la, um deles, consistia em todo mundo no País dar uma grana, por um tempo, a fim de que nos livrássemos do espeto. O que poderia ser revolucionário - a primeira ação de crowdfunding da história brasileira e com motivo nobre - nunca deixou de ser ideia, apenas ideia. Corrupção e corruptos existiam, grupos de extermínio - e suas consequências em preto, branco e vermelho - soma da cor dos jornais e das patrulhinhas da pm na óbvia conjunção - faziam da Baixada um dos lugares mais violentos do Planeta.
O leão - do imposto de renda - rugia todos os anos como hoje ainda o faz, o comunismo andava desacreditado, mas temido - como hoje também está - e resistia em alguns lugares - como hoje sobrevive. Entre eles, era vivo no maior país do mundo, o que tinha o maior dos nomes e por isso, nos títulos dos jornais, era conhecido por sua sigla. Não era um mundo pacífico, e mesmo aquele nome, que provocava acaloradas discussões não apenas nas brincadeiras de criança, mas entre os adultos, intrigava a mim e tanto outros meninos quando o via nos uniformes dos vermelhos nas Olimpíadas - CCCP, não devia ser URSS?
Ainda nos anos em que fui pequeno, estranhava no jornal a existência de um ministério da fazenda e outro da agricultura. Já então acreditava que a redundância em nossas instituições era contraprodutiva. Como agricultura sem fazenda? Ficava então imaginando onde ficaria a tal Fazenda Nacional. Como seria? Teria cavalos? Bois? Plantaria bananas? Devia ser este o lugar da agricultura, só podia ser.
Achava as propagandas de camisinha estranhas - por que falar tanto de uma doença que podia ser prevenida com uma peça de roupa que todo mundo tinha em suas gavetas? Durante uma época, achava que AIDS - outra sigla dos noticiários - era uma espécie de gripe. Como a friagem, era evitável usando uma camisa - pequena que fosse.
A imprensa chegou a chamar a doença de câncer gay - esta nomenclatura, felizmente, em algum momento, foi abandonada. Do alto dos meus poucos anos de idade, restava-me a ideia de que bastava botar a camisinha e todos estaríamos protegidos daquela friagem.
Foi um verão quente e usar camisinhas - umas de heróis, outras de boutiques, todas feitas no Brasil, no entanto - só me fez suar mais. Hoje entendo que naquela ordem - botar camisinha, suar, evitar uma doença - talvez residisse de forma primária um mundo futuro bem semelhante - onde se usava camisinha, se suava, se evitava doenças, mas o qual o jornal não muito bem explicava. Suaria então naquele verão pretérito. E em outros, já possuidor das reais intenções daquelas propagandas.
Das muitas confusões possíveis, falava-se ainda dos generais saudosos e de bandidos que trocavam tiros com polícia pela fezinha remunerada nos subúrbios - na época, o grande inimigo não eram os traficantes, mas os bicheiros, que além de patrocinarem escolas de samba, times de futebol, deputados e vereadores, campanhas políticas, clubes, festas, prefeituras, subornarem policiais semanalmente, possuíam fortalezas intransponíveis em subúrbios menos idealizados do que o da minha infância.
Cada um tem a memória, a idealização e o subúrbio que merece ou que pode se dar. Nas fortalezas do bicho, mostradas nos jornais, em fotos abertas em 7 colunas, me intrigava como aqueles moços sentados em carteiras escolares nas esquinas da zona norte podiam ter tanto dinheiro. Apontador de bicho, para o alto dos meus poucos anos, devia ser profissão muito rentável. Mas eu queria ser bombeiro. Ou motorista de trator. Ou ambos.
No hoje, ainda são muitas as semelhanças com aqueles dias que sobrevivem nas minhas turvas memórias criadas do ponto de vista do menino cuja altura pouco passava a do tampo da mesa de jantar, que andava de bicicleta de aro 10 no quintal de imensos 100 metros quadrados, que caminhava 1,5km para a escola ou para a padaria, que inexistia no subúrbio, onde, independente de idealização, não havia comércio - a não ser um bar que só vendia cachaça e em que havia muitos homens de olhos baços, vermelhos, comentando as revistas de mulher pelada - eram assim chamadas as publicações adultas.
Uns anos à frente, a história mostraria que apenas nas páginas de revista que contavam os próximos capítulos das novelas pode se antecipar o futuro. Um muro que iria cair e unir dois países, a transformação de uma união de repúblicas em comunidade e Estados independentes, a primeira eleição direta em vinte e tantos anos - o escolhido naquela oportunidade, ao contrário do antecessor, não usaria bigode, usaria gel, mas também tinha como experiência pretérita o governo de um dos estados mais pobres daquele país de 3° mundo. Naquela época, terceiro mundo, aliás, não era referência à nossa posição no sistema solar, mas à nossa localização na escala evolutiva natural dos países. Era o título que nos definia então.
Hoje, neste dia 24 de junho de 2014, quando realiza-se a segunda Copa do Mundo de Futebol no Brasil, imediatos 64 anos após a primeira, diga-se, a história revela-se traiçoeira novamente. Não pelos feitos do futebol, imprevisível por natureza, sujeito a caprichos próprios, às vontades e às veleidades dos atletas milionários e da entidade que congrega a paixão de bilhões de apaixonados e o dinheiro de outros tantos que nem tanto gostam de futebol. Hoje, é o dia em que, após décadas de serviços prestados, uma das grandes continuidades do nosso passado remoto e do não tão distante também, o imortal José Sarney desistiu de sair candidato a um cargo eletivo. Há 20 e poucos anos, o presidente tinha bigodes, referia-se a quem não o elegeu como brasileiros e brasileiras, éramos tricampeões de futebol, tínhamos uma das maiores dívidas externas do mundo, e estávamos em crise eterna na década perdida. Nosso atacante, no entanto, não tinha um chumaço de pelos entre nariz e lábios. Hoje, esta aí o bigode no atleta, mas não no nosso presidente - que aliás, é presidenta. O tempo faz feng shuis imprevisíveis em pelos corporais, vê-se. Nossa dívida se foi, a inflação mantém-se em medida infinitamente inferior à do passado, sediamos uma copa, sediaremos uma olimpíada, não existe mais o Conga nacional, a sorveteria Sem Nome, Dragão Chinês, a cerveja malt 90, somos pentacampeões mundiais de futebol e não nos sentimos mais como parte integrante do álbum de figurinhas Terceiro Mundo. Se é que ele existe.
E aí o Sarney se aposenta.
Como na música, mas contra as memórias das minhas previsões de futuro naquela casa de subúrbio com janela para o mundo impressa em papel, com fotos em preto e branco, cadernos de 7 colunas e com tinta que sujava as mãos, devo dizer: I have to admit, it's getting better, it's getting better, all the time.
Jornal era coisa de fim de semana - no distante bairro com dois nomes, onde não havia assinatura, também não havia banca. Em um tempo onde ecologia não era assunto - o jornal já tinha direito a reciclagens: fundo de gaiola do passarinho, embrulho de peixe na feira e de frango no aviário aos domingos, chapéu, gaivota, aviãozinho, rabiola, barco e, função principal, portador de novidades e companheiro de descobertas de um mundo que ficava do portão para lá, além do jardim, depois da estação que levava-nos do subúrbio em que faltava água e luz para o deslumbramento da Central, a dos meninos de rua cheirando cola, da Presidente Vargas, do carnaval da Rio Branco, e às vezes para Madureira, para a feirinha da Pavuna, onde, sabe-se, houve uma grande confusão.
Naquele tempo, se parafraseasse o livro mais vendido de todos os tempos, inclusive daquele, o Brasil, em ritmo de democratização e em clima de ressaca moral futebolística e política, ou melhor, o Brasil que eu via e lia nos jornais naqueles fins de semana e na tv de 6 canais - podendo chegar a 7 com ajuda da geografia e do bombril - já tinha muitos mi(ni)stérios. Tinha inflação bem pior que a atual e aparentemente irrefreável - um dragão, dizia-se, que comeria o valor das minhas moedinhas tal qual comunistas deviam fazer então com os meninos de outros subúrbios de nomes estranhos no tal Leste Europeu. Ali, portanto, éramos não-comunistas.
Havia uma dívida externa impagável - e existiam planos de quitá-la, um deles, consistia em todo mundo no País dar uma grana, por um tempo, a fim de que nos livrássemos do espeto. O que poderia ser revolucionário - a primeira ação de crowdfunding da história brasileira e com motivo nobre - nunca deixou de ser ideia, apenas ideia. Corrupção e corruptos existiam, grupos de extermínio - e suas consequências em preto, branco e vermelho - soma da cor dos jornais e das patrulhinhas da pm na óbvia conjunção - faziam da Baixada um dos lugares mais violentos do Planeta.
O leão - do imposto de renda - rugia todos os anos como hoje ainda o faz, o comunismo andava desacreditado, mas temido - como hoje também está - e resistia em alguns lugares - como hoje sobrevive. Entre eles, era vivo no maior país do mundo, o que tinha o maior dos nomes e por isso, nos títulos dos jornais, era conhecido por sua sigla. Não era um mundo pacífico, e mesmo aquele nome, que provocava acaloradas discussões não apenas nas brincadeiras de criança, mas entre os adultos, intrigava a mim e tanto outros meninos quando o via nos uniformes dos vermelhos nas Olimpíadas - CCCP, não devia ser URSS?
Ainda nos anos em que fui pequeno, estranhava no jornal a existência de um ministério da fazenda e outro da agricultura. Já então acreditava que a redundância em nossas instituições era contraprodutiva. Como agricultura sem fazenda? Ficava então imaginando onde ficaria a tal Fazenda Nacional. Como seria? Teria cavalos? Bois? Plantaria bananas? Devia ser este o lugar da agricultura, só podia ser.
Achava as propagandas de camisinha estranhas - por que falar tanto de uma doença que podia ser prevenida com uma peça de roupa que todo mundo tinha em suas gavetas? Durante uma época, achava que AIDS - outra sigla dos noticiários - era uma espécie de gripe. Como a friagem, era evitável usando uma camisa - pequena que fosse.
A imprensa chegou a chamar a doença de câncer gay - esta nomenclatura, felizmente, em algum momento, foi abandonada. Do alto dos meus poucos anos de idade, restava-me a ideia de que bastava botar a camisinha e todos estaríamos protegidos daquela friagem.
Foi um verão quente e usar camisinhas - umas de heróis, outras de boutiques, todas feitas no Brasil, no entanto - só me fez suar mais. Hoje entendo que naquela ordem - botar camisinha, suar, evitar uma doença - talvez residisse de forma primária um mundo futuro bem semelhante - onde se usava camisinha, se suava, se evitava doenças, mas o qual o jornal não muito bem explicava. Suaria então naquele verão pretérito. E em outros, já possuidor das reais intenções daquelas propagandas.
Das muitas confusões possíveis, falava-se ainda dos generais saudosos e de bandidos que trocavam tiros com polícia pela fezinha remunerada nos subúrbios - na época, o grande inimigo não eram os traficantes, mas os bicheiros, que além de patrocinarem escolas de samba, times de futebol, deputados e vereadores, campanhas políticas, clubes, festas, prefeituras, subornarem policiais semanalmente, possuíam fortalezas intransponíveis em subúrbios menos idealizados do que o da minha infância.
Cada um tem a memória, a idealização e o subúrbio que merece ou que pode se dar. Nas fortalezas do bicho, mostradas nos jornais, em fotos abertas em 7 colunas, me intrigava como aqueles moços sentados em carteiras escolares nas esquinas da zona norte podiam ter tanto dinheiro. Apontador de bicho, para o alto dos meus poucos anos, devia ser profissão muito rentável. Mas eu queria ser bombeiro. Ou motorista de trator. Ou ambos.
No hoje, ainda são muitas as semelhanças com aqueles dias que sobrevivem nas minhas turvas memórias criadas do ponto de vista do menino cuja altura pouco passava a do tampo da mesa de jantar, que andava de bicicleta de aro 10 no quintal de imensos 100 metros quadrados, que caminhava 1,5km para a escola ou para a padaria, que inexistia no subúrbio, onde, independente de idealização, não havia comércio - a não ser um bar que só vendia cachaça e em que havia muitos homens de olhos baços, vermelhos, comentando as revistas de mulher pelada - eram assim chamadas as publicações adultas.
Uns anos à frente, a história mostraria que apenas nas páginas de revista que contavam os próximos capítulos das novelas pode se antecipar o futuro. Um muro que iria cair e unir dois países, a transformação de uma união de repúblicas em comunidade e Estados independentes, a primeira eleição direta em vinte e tantos anos - o escolhido naquela oportunidade, ao contrário do antecessor, não usaria bigode, usaria gel, mas também tinha como experiência pretérita o governo de um dos estados mais pobres daquele país de 3° mundo. Naquela época, terceiro mundo, aliás, não era referência à nossa posição no sistema solar, mas à nossa localização na escala evolutiva natural dos países. Era o título que nos definia então.
Hoje, neste dia 24 de junho de 2014, quando realiza-se a segunda Copa do Mundo de Futebol no Brasil, imediatos 64 anos após a primeira, diga-se, a história revela-se traiçoeira novamente. Não pelos feitos do futebol, imprevisível por natureza, sujeito a caprichos próprios, às vontades e às veleidades dos atletas milionários e da entidade que congrega a paixão de bilhões de apaixonados e o dinheiro de outros tantos que nem tanto gostam de futebol. Hoje, é o dia em que, após décadas de serviços prestados, uma das grandes continuidades do nosso passado remoto e do não tão distante também, o imortal José Sarney desistiu de sair candidato a um cargo eletivo. Há 20 e poucos anos, o presidente tinha bigodes, referia-se a quem não o elegeu como brasileiros e brasileiras, éramos tricampeões de futebol, tínhamos uma das maiores dívidas externas do mundo, e estávamos em crise eterna na década perdida. Nosso atacante, no entanto, não tinha um chumaço de pelos entre nariz e lábios. Hoje, esta aí o bigode no atleta, mas não no nosso presidente - que aliás, é presidenta. O tempo faz feng shuis imprevisíveis em pelos corporais, vê-se. Nossa dívida se foi, a inflação mantém-se em medida infinitamente inferior à do passado, sediamos uma copa, sediaremos uma olimpíada, não existe mais o Conga nacional, a sorveteria Sem Nome, Dragão Chinês, a cerveja malt 90, somos pentacampeões mundiais de futebol e não nos sentimos mais como parte integrante do álbum de figurinhas Terceiro Mundo. Se é que ele existe.
E aí o Sarney se aposenta.
Como na música, mas contra as memórias das minhas previsões de futuro naquela casa de subúrbio com janela para o mundo impressa em papel, com fotos em preto e branco, cadernos de 7 colunas e com tinta que sujava as mãos, devo dizer: I have to admit, it's getting better, it's getting better, all the time.
Friday, 20 June 2014
Para ser craque
É preciso um bando de coisas. Mas, se algumas são adquiríveis durante a vida pré-craque, outra, talvez a mais importante, é de fábrica.
Há, no grande jogador de futebol, e talvez em todo grande atleta, uma esperteza, uma iluminação prévia à jogada, à vida, quem sabe, que o permite, se não, antever o próximo passo, ao menos reconhecer a familiaridade do presente. Para o grande jogador, o imponderável é uma ilusão. Não há tentativa, há o feito, diria Yoda.
Esta clarividência não é culpa da repetição exaustiva típica de uma vida assim. Embora a ideia de talento seja um tanto complexa - pré-disposição natural, item de fábrica, para um ato aleatório - chutar uma bola, executar um cruzamento ou ser dentista - talento, do ponto de vista biológico é difícil de se prever e em geral complexo de explicar.
Há, no grande jogador de futebol, e talvez em todo grande atleta, uma esperteza, uma iluminação prévia à jogada, à vida, quem sabe, que o permite, se não, antever o próximo passo, ao menos reconhecer a familiaridade do presente. Para o grande jogador, o imponderável é uma ilusão. Não há tentativa, há o feito, diria Yoda.
Esta clarividência não é culpa da repetição exaustiva típica de uma vida assim. Embora a ideia de talento seja um tanto complexa - pré-disposição natural, item de fábrica, para um ato aleatório - chutar uma bola, executar um cruzamento ou ser dentista - talento, do ponto de vista biológico é difícil de se prever e em geral complexo de explicar.
Mas sabe-se que uma vida de repetições - bola após bola,
cabeçada após cabeçada, calçar as chuteiras, aquecer, alongar,
correr, suar, ver, tentar, não conseguir, repetir, e no fim, a solidão do vestiário, o corpo sob a água, o ponto da exaustão plena, do
pensamento zero - o craque não apenas antevê a jogada, não apenas advinha o caminho possível e provável da bola, do adversário. Inconscientemente, ele conhece o caminho certo. Se aquele for o dia, e para o grande jogador, muitos são esses momentos, ele limpa a jogada, escapa ao zagueiro, arma o bote certeiro e passa com leveza e graças simuladas - sabe-se, é o auge de seu esforço.
É feito de certeza natural nele: o caminho exato naquele único momento, que se define o imponderável - o sucesso familiar do passe na medida, do lançamento inacreditável, do chute destemido que desbrava a grama e morre na rede, da defesa espetacular, do desarme no último momento, do drible desconcertante.
Em um Milla, em um Romário, em um Didi, em um Lineker, em um Beckenbauer, em um Rivaldo, em um Maradona, o sorriso após a jogada correta não era surpresa com o sucesso, era a familiaridade com o óbvio, vitória intimamente conhecida e antecipada da forma única que só assim aconteceria: o movimento preciso, de tempo certo, em que se desenha a chance imperdível para ele. O craque não advinha o caminho, ele sabe, ele é o caminho.
É feito de certeza natural nele: o caminho exato naquele único momento, que se define o imponderável - o sucesso familiar do passe na medida, do lançamento inacreditável, do chute destemido que desbrava a grama e morre na rede, da defesa espetacular, do desarme no último momento, do drible desconcertante.
Em um Milla, em um Romário, em um Didi, em um Lineker, em um Beckenbauer, em um Rivaldo, em um Maradona, o sorriso após a jogada correta não era surpresa com o sucesso, era a familiaridade com o óbvio, vitória intimamente conhecida e antecipada da forma única que só assim aconteceria: o movimento preciso, de tempo certo, em que se desenha a chance imperdível para ele. O craque não advinha o caminho, ele sabe, ele é o caminho.
Quando erra, quando não é um daqueles muitos dias em que ele é craque, sabe-se, houve uma desconexão entre fato e ato, entre saber e fazer. Não se tem registro de um Pelé, de um Zico, de um Jairzinho, de um Bergkamp, de um Banks a culpar a bola, o vento, a grama, o almoço, o hotel, talvez o juiz, mas nunca de suas velhas conhecidas parceiras, pelo dia de não. O craque não erra pelo chuveiro ruim no vestiário, pela grama carcomida na zona do agrião. Quando falha o craque, o ponderável triunfa. Ou outro craque sobressai. Como Zidane, nas copas de 98, 2006, sobretudo contra a seleção do uniforme canarinho, ela também, coalhada de grandes craques - à exceção daquele dia onde desenhou-se a tragédia imprevisível a princípio.
O craque, muitos dizem antever no menino, na menina. Muita gente jura que sabia quem se tornaria Garrincha naquele primeiro treino em general Severiano. Aliás, muitos dizem que estavam presentes naquele dia. Imprecisões à parte, sabe-se o óbvio: o craque se forma na íntima relação que mantém com o futuro e com o presente contínuo. Se se pode antever seu nascimento, este só se confirmará nos muitos momentos de plena e consolidada clarividência nos gramados da vida de eterno presente: treinar, chutar, repetir, errar, tentar, correr, alongar, aquecer, desaquecer, alongar, tentar, acertar, a solidão do erro, a congratulação no vestiário, o apupo das arquibancadas.
Ser craque é viver no conto em que sempre é véspera de natal. No seu caso, no entanto, sempre é domingo, sempre é dia de vitória, sempre haverá o imponderável, mesmo quando os resultados não são favoráveis. É fazer, conseguir, tentar, repetir, congratular e sorrir. Vida de craque, mesmo na solidão dos dias de não, é saber que em algum momento, como em Casablanca, voltará a sentir a sensação familiar do instante imediato após conquistar o sucesso escorregadio.
Para o craque, a vida é um eterno presente.
Para nós, mortais, sua existência se comprova no passado e se consolida no futuro. Craque tem de fazer e muito até o dia em que recebe seu título.
Que, para ele, é o dia de sempre.
Ser craque é viver no conto em que sempre é véspera de natal. No seu caso, no entanto, sempre é domingo, sempre é dia de vitória, sempre haverá o imponderável, mesmo quando os resultados não são favoráveis. É fazer, conseguir, tentar, repetir, congratular e sorrir. Vida de craque, mesmo na solidão dos dias de não, é saber que em algum momento, como em Casablanca, voltará a sentir a sensação familiar do instante imediato após conquistar o sucesso escorregadio.
Para o craque, a vida é um eterno presente.
Para nós, mortais, sua existência se comprova no passado e se consolida no futuro. Craque tem de fazer e muito até o dia em que recebe seu título.
Que, para ele, é o dia de sempre.
Tuesday, 17 June 2014
Animália
Todo debate de internet tem uns tipos meio como os loucos de palestra: aquelas figuras que, quando o mediador abre para perguntas, pedem a palavra - em casamento de longa duração, que fique claro - e fazem comentários cuja relevância e proximidade com o tema do seminário fazem os participantes se perguntarem se tinham dormido durante os momentos em que aquele assunto foi abordado. Repare, num congresso de cardiologia, sempre haverá um senhor no fundo da sala, que além de ser cardiopata, sabe que a Nasa já tem a cura do câncer - eles apenas não divulgam.
É através da química quântica, aliás.
Cabe, portanto, em qualquer palestra, olho clínico ou clarividência do mediador ao escolher quem fará perguntas. Ou estabelecer que questões serão por escrito. E com inscrição e entrevista prévias de antecedentes.
Nos debates muito polêmicos, hoje em dia sediados principalmente nas redes sociais, os tipos se multiplicam e mimetizam alguns comportamentos socio(páticos?).
Tem o historiador de facebook. O camarada é capaz - talvez com ajuda da wikipedia - de citar a escalação da seleção iugoslava de 44 que disputou amistoso em Berna contra um combinado da Westfália como prova cabal de que não foi o Zagallo o inventor involuntário do 4-3-3. Ele também em geral lembra que tudo que aconteceu hoje - a queda das ações da bolsa em abril, de um prédio, a morte por overdose de uma atriz ou o silêncio dos meios de comunicação sobre a matéria da Economist que acusa a Globo de monopolista - como reflexo do passado distante, do qual não nos lembramos, mas sabe-se, os livros guardam registro.
Tem ainda o gozador infatigável. Ele é o comentarista do caos de posts alheios. Seu objetivo é claro: não perder uma piada que só ele viu - e provavelmente só ele vai achar graça. Olhos ávidos e febris, ele observa a timeline em busca do espaço para inserir a frase curta da qual só ele rirá. Mas alguém com senso de humor elevado ou ferino como o dele também curtirá.
Nas discussões longas, em que minuto a minuto debatedores trocam farpas e insultos a torto e a direito, sempre surge o compartilhador solidário. É sobretudo o camarada que diz pouco, sempre de forma enigmática, ao compartilhar um post com um texto imenso na discussão ríspida e, que ele espera que, obviamente, acalme os opostos.
Há ainda os crentes na bondade, parcimônia e justeza do debate de internet. Estes, em geral, só estão ali para apaziguar ânimos com relativizações diversas: "que isso, gente, calma. Todo mundo sabe que trabalho escravo é bom para ambas as partes... Relativizem". É sobretudo um camarada que acredita que se pode ser leninista e a favor do livre mercado ou que o Antônio Carlos Magalhães e o PC Farias no fundo eram bons sujeitos. Há sempre espaço para relativização.
Há ainda nesta ecologia da rede o cão raivoso. Ele é virulento, nem sempre de direita, há os canhotos, mas fiel à sua ideologia como o pitbull o é ao seu dono. É capaz de atacar um post sobre reumatismo na terceira idade com ideias sobre como a mais valia é um acessório burguês na consecução da revolução comunista - não é um camarada sempre muito por dentro da ideologia que segue. Cachorros, afinal, são fiéis a seus donos. Mesmo quando o dono é digno de cocô no sapato e mordida no calcanhar.
E além destes há o Bolsonaro e sua genealogia. Seus defensores - asseclas? devotos? - são capazes de defesas do indefensável e em geral sentem saudade do que nunca conheceram - muitos jovens Bolsonaristas sentem a ausência hoje da ditadura que não conheceram. É Renato Russiano: aquela saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi. Eles esquecem da parte do espelho e do mundo doente.
O rol de tipos humanos na internet segue padrões semelhantes ao mundo real e que a gente enxerga também através dos próprios princípios. Há aqueles que escrevem muito - questão de opinião, diria, este camarada que vos digita - há os voyeurs - observam, tiram proveito e não sabemos nunca o que pensam. Há os que nunca escrevem, não compartilham, não perguntam, não se engajam, talvez nem saibam ler. Mas um dia decidiram que era hora de ter uma conta em uma rede social.
Há os que compartilham os segredos escondidos da internet: cura de todas as doenças com erva desconhecida da amazônia, conspiração mundial contra ele próprio, interesses escusos e invisíveis em todas as transações humanas, o inferno já está na terra. Nada que precise de senso crítico ou de pesquisa para saber se o que se diz é verdade. Ter aquela informação ou como ela chegou a ele é o de menos. Basta saber que a mídia tentou acobertar, ninguém falou porque o motor movido a bafo de recém nascido canhoto acabaria com a indústria de petróleo. E não é dos interesses deles.
Deles quem? Deles!
É através da química quântica, aliás.
Cabe, portanto, em qualquer palestra, olho clínico ou clarividência do mediador ao escolher quem fará perguntas. Ou estabelecer que questões serão por escrito. E com inscrição e entrevista prévias de antecedentes.
Nos debates muito polêmicos, hoje em dia sediados principalmente nas redes sociais, os tipos se multiplicam e mimetizam alguns comportamentos socio(páticos?).
Tem o historiador de facebook. O camarada é capaz - talvez com ajuda da wikipedia - de citar a escalação da seleção iugoslava de 44 que disputou amistoso em Berna contra um combinado da Westfália como prova cabal de que não foi o Zagallo o inventor involuntário do 4-3-3. Ele também em geral lembra que tudo que aconteceu hoje - a queda das ações da bolsa em abril, de um prédio, a morte por overdose de uma atriz ou o silêncio dos meios de comunicação sobre a matéria da Economist que acusa a Globo de monopolista - como reflexo do passado distante, do qual não nos lembramos, mas sabe-se, os livros guardam registro.
Tem ainda o gozador infatigável. Ele é o comentarista do caos de posts alheios. Seu objetivo é claro: não perder uma piada que só ele viu - e provavelmente só ele vai achar graça. Olhos ávidos e febris, ele observa a timeline em busca do espaço para inserir a frase curta da qual só ele rirá. Mas alguém com senso de humor elevado ou ferino como o dele também curtirá.
Nas discussões longas, em que minuto a minuto debatedores trocam farpas e insultos a torto e a direito, sempre surge o compartilhador solidário. É sobretudo o camarada que diz pouco, sempre de forma enigmática, ao compartilhar um post com um texto imenso na discussão ríspida e, que ele espera que, obviamente, acalme os opostos.
Há ainda os crentes na bondade, parcimônia e justeza do debate de internet. Estes, em geral, só estão ali para apaziguar ânimos com relativizações diversas: "que isso, gente, calma. Todo mundo sabe que trabalho escravo é bom para ambas as partes... Relativizem". É sobretudo um camarada que acredita que se pode ser leninista e a favor do livre mercado ou que o Antônio Carlos Magalhães e o PC Farias no fundo eram bons sujeitos. Há sempre espaço para relativização.
Há ainda nesta ecologia da rede o cão raivoso. Ele é virulento, nem sempre de direita, há os canhotos, mas fiel à sua ideologia como o pitbull o é ao seu dono. É capaz de atacar um post sobre reumatismo na terceira idade com ideias sobre como a mais valia é um acessório burguês na consecução da revolução comunista - não é um camarada sempre muito por dentro da ideologia que segue. Cachorros, afinal, são fiéis a seus donos. Mesmo quando o dono é digno de cocô no sapato e mordida no calcanhar.
E além destes há o Bolsonaro e sua genealogia. Seus defensores - asseclas? devotos? - são capazes de defesas do indefensável e em geral sentem saudade do que nunca conheceram - muitos jovens Bolsonaristas sentem a ausência hoje da ditadura que não conheceram. É Renato Russiano: aquela saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi. Eles esquecem da parte do espelho e do mundo doente.
O rol de tipos humanos na internet segue padrões semelhantes ao mundo real e que a gente enxerga também através dos próprios princípios. Há aqueles que escrevem muito - questão de opinião, diria, este camarada que vos digita - há os voyeurs - observam, tiram proveito e não sabemos nunca o que pensam. Há os que nunca escrevem, não compartilham, não perguntam, não se engajam, talvez nem saibam ler. Mas um dia decidiram que era hora de ter uma conta em uma rede social.
Há os que compartilham os segredos escondidos da internet: cura de todas as doenças com erva desconhecida da amazônia, conspiração mundial contra ele próprio, interesses escusos e invisíveis em todas as transações humanas, o inferno já está na terra. Nada que precise de senso crítico ou de pesquisa para saber se o que se diz é verdade. Ter aquela informação ou como ela chegou a ele é o de menos. Basta saber que a mídia tentou acobertar, ninguém falou porque o motor movido a bafo de recém nascido canhoto acabaria com a indústria de petróleo. E não é dos interesses deles.
Deles quem? Deles!
Friday, 13 June 2014
Voz passiva também é ativa.
A polícia feriu duas jornalistas da CNN durante protestos de ontem em SP ao atirar uma bomba de efeito moral - os estilhaços as acertaram. O Globo, em sua edição de hoje, chamou de acidente. Ainda que não haja intencionalidade - que a PM só quisesse usar a bomba contra um manifestante, como praxe - é preocupante que o jornal do falecido Dr.Roberto qualifique assim uma ação onde há sujeito composto, verbos e complemento para melhores títulos.
Como por exemplo, na versão simples, sem uso da palavra acidente: "Jornalistas são feridas por bomba usada pela polícia". Esta, com voz passiva, temerosa, mas que implica em alguma culpa dos agentes do Estado ali presentes.
Com voz ativa poderia ser: Polícia arremessa bomba e fere duas jornalistas. Não há sequer juízo de valor aqui, é apenas o que aconteceu. Não se usou nenhum dos substantivos e adjetivos que identificam e qualificam ações normalmente no jornalismo nosso de cada dia. Não se falou em truculência, resposta desmensurada, desproporcionalidade de métodos, imperícia, imprevidência, tragédia, violência, caos - esta palavra que já deveria ter sido banida do jornalismo. Só foi um título com 2 verbos, 3 substantivos, 1 numeral e uma conjunção. Um período composto de orações com relação de causa e efeito definida.
Ontem ainda outros colegas foram feridos em situações semelhantes. E segundo o jornal da Família Marinho mais 17 pessoas ficaram feridas nos protestos. Na verdade, a frase acima esconde o óbvio - 17 pessoas foram feridas e não feriram-se, como ora se pretende.
Ficar ferido - ou se ferir - significa - ou dá a impressão de que é - se autoinflingir um dano, ou, que o ferimento decorre de um ato praticado pelo ferido. Ou seja, 17 pessoas ficaram feridas quer dizer que se atribui a elas "alguma culpa" - indefinida, obviamente - pelo que lhes ocorreu.
O jornal até hoje não entende os protestos, relembre-se.
O Globo relata em sua primeira página as vaias e os xingamentos à Presidente. Quando se trata de passar a oração da voz passiva à ativa, o jornal falha. "Dilma é vaiada e xingada" não é apenas o uso fortuito de voz passiva. É a generalização do ato de um grupo de pessoas - 60 mil ou 500 pessoas não deixam de ser um grupo - que tem em comum o fato de ter condições de estar em um estádio de futebol em uma abertura de Copa do Mundo. O sujeito aqui é perfeitamente definido.
Não é necessário ser expert em português ou comunicação para subentender o óbvio: a culpa do ferimento é do ferido - salvo no caso da CNN. A culpa da vaia e dos xingamentos é da Dilma, afinal são 33% de aprovação de seu Governo e grandes chances de ela ser eleita no primeiro turno a um segundo mandato. Dito isso, estes 33% de aprovação e a conjuntura eleitoral ou revelam que o índice não é relevante, ou foi mal composto, ou que as opções disponíveis no horizonte de outubro estão longe de ser relevantes igualmente.
No caso das jornalistas da CNN, há o agravante: não há erro da polícia.
Há, sim, um acidente. O raciocínio acima implica no óbvio - ferimento a jornalistas não é bem digerido, embora também não se apontem os óbvios culpados - a PM paulista. O dos manifestantes é resultado de sua própria ação. O dano inflingido à democracia e à possibilidade de um caminho menos tortuoso na melhora das condições de vida e do País é, no entanto, determinado, ativo, claro e perceptível.
Só não compreende isto o jornal O Globo. Tem direito.
Na vaia em voz passiva e coletiva no estádio da abertura da Copa do Mundo, a voz da Família Marinho é ativa, mas talvez ainda pouco audível. Os recados, não são dados à meia voz, mas ao pé do ouvido.
São recados dados com objeto direto da voz ativa tornando-se sujeito na passiva. Não é que Dilma tenha sido vaiada. É que Parte do público presente ao estádio vaiou Dilma. E o Globo, que não reconhece nem a truculência policial e nem sua ineficácia, vaiou junto. Não é à toa.
Como por exemplo, na versão simples, sem uso da palavra acidente: "Jornalistas são feridas por bomba usada pela polícia". Esta, com voz passiva, temerosa, mas que implica em alguma culpa dos agentes do Estado ali presentes.
Com voz ativa poderia ser: Polícia arremessa bomba e fere duas jornalistas. Não há sequer juízo de valor aqui, é apenas o que aconteceu. Não se usou nenhum dos substantivos e adjetivos que identificam e qualificam ações normalmente no jornalismo nosso de cada dia. Não se falou em truculência, resposta desmensurada, desproporcionalidade de métodos, imperícia, imprevidência, tragédia, violência, caos - esta palavra que já deveria ter sido banida do jornalismo. Só foi um título com 2 verbos, 3 substantivos, 1 numeral e uma conjunção. Um período composto de orações com relação de causa e efeito definida.
Ontem ainda outros colegas foram feridos em situações semelhantes. E segundo o jornal da Família Marinho mais 17 pessoas ficaram feridas nos protestos. Na verdade, a frase acima esconde o óbvio - 17 pessoas foram feridas e não feriram-se, como ora se pretende.
Ficar ferido - ou se ferir - significa - ou dá a impressão de que é - se autoinflingir um dano, ou, que o ferimento decorre de um ato praticado pelo ferido. Ou seja, 17 pessoas ficaram feridas quer dizer que se atribui a elas "alguma culpa" - indefinida, obviamente - pelo que lhes ocorreu.
O jornal até hoje não entende os protestos, relembre-se.
O Globo relata em sua primeira página as vaias e os xingamentos à Presidente. Quando se trata de passar a oração da voz passiva à ativa, o jornal falha. "Dilma é vaiada e xingada" não é apenas o uso fortuito de voz passiva. É a generalização do ato de um grupo de pessoas - 60 mil ou 500 pessoas não deixam de ser um grupo - que tem em comum o fato de ter condições de estar em um estádio de futebol em uma abertura de Copa do Mundo. O sujeito aqui é perfeitamente definido.
Não é necessário ser expert em português ou comunicação para subentender o óbvio: a culpa do ferimento é do ferido - salvo no caso da CNN. A culpa da vaia e dos xingamentos é da Dilma, afinal são 33% de aprovação de seu Governo e grandes chances de ela ser eleita no primeiro turno a um segundo mandato. Dito isso, estes 33% de aprovação e a conjuntura eleitoral ou revelam que o índice não é relevante, ou foi mal composto, ou que as opções disponíveis no horizonte de outubro estão longe de ser relevantes igualmente.
No caso das jornalistas da CNN, há o agravante: não há erro da polícia.
Há, sim, um acidente. O raciocínio acima implica no óbvio - ferimento a jornalistas não é bem digerido, embora também não se apontem os óbvios culpados - a PM paulista. O dos manifestantes é resultado de sua própria ação. O dano inflingido à democracia e à possibilidade de um caminho menos tortuoso na melhora das condições de vida e do País é, no entanto, determinado, ativo, claro e perceptível.
Só não compreende isto o jornal O Globo. Tem direito.
Na vaia em voz passiva e coletiva no estádio da abertura da Copa do Mundo, a voz da Família Marinho é ativa, mas talvez ainda pouco audível. Os recados, não são dados à meia voz, mas ao pé do ouvido.
São recados dados com objeto direto da voz ativa tornando-se sujeito na passiva. Não é que Dilma tenha sido vaiada. É que Parte do público presente ao estádio vaiou Dilma. E o Globo, que não reconhece nem a truculência policial e nem sua ineficácia, vaiou junto. Não é à toa.
Wednesday, 11 June 2014
Minha culpa.
Uma dia, na redação, um editor chegou para mim depois de eu voltar com algumas fotos da praia cheia e perguntou se não tinha nenhuma de uma "gostosa" para dar na primeira página: "uma dessas do posto nove".
Outra vez antes de sair para uma pauta de economia fui avisado pelo editor da vez que não devia fotografar pretos: sabe como é o jornal, né? Aquele era o jornal das esquerdas do país.
Um dia, em um ano de eleição, o editor me pediu para ir para a rua fazer fotos de militantes agitando bandeiras dos partidos. Quando voltei, ele reclamou que eu não tinha armado uma foto com militantes de vários partidos no mesmo local - eles estavam separados.
Em outro dia em um jornal, após a queda de um avião, recebi um e-mail da então chefe me dizendo que não precisava fazer as fotos dos parentes das vítimas chorando na janelas do aeroporto, que deveria tentar fazer retratos identificados de cada um deles pois o jornal iria usá-los. De fato, o jornal devia ser a Caras e não o maior jornal do País. E de fato seria ok em uma tragédia onde morreram 144 pessoas ficar buscando nome e sobrenome de um número gigantesco de parentes a fim de que o jornal fizesse seu álbum de figurinhas.
Em outra vez, o editor da revista de SP para quem eu frilava me ligou reclamando das fotos para uma matéria sobre sono. Ele disse que os personagens das fotos - entrevistados por telefone por um repórter - pareciam "pobres" e perguntou porque eu não desisti da foto já que eles não eram o "perfil" da publicação. Respondi qualquer coisa e nunca mais trabalhei para eles.
Em outra ocasião, fotografei um escritor e na volta à redação conversei com a chefe que me disse que era "bastante amiga" do camarada. Em muitas outras vezes na volta à redação após fotografar outra pessoa, aquele mesmo chefe me confirmaria "que era bastante amigo" de cada fulano que eu tinha fotografado. Aparentemente, o jornal tinha um quê de facebook numa época em que a rede social sequer sonhava em aportar aqui.
Em outra vez, um editor, no meio de uma operação policial bastante tensa, me ligou e pediu que eu saísse do local onde estava para procurar um camarada que tinha levado três tiros e provavelmente morria em algum dos hospitais da região. Naquele dia, eu era o único fotógrafo do jornal naquela favela. Assim, no dia seguinte, a foto da primeira página era a de uma agência internacional - aconteceu uma hora depois de eu ter sido deslocado para passar 2 horas na porta do hospital tentando uma entrevista com um camarada que tinha levado no mínimo 3 tiros. Ele sairia do hospital ou morreria uma semana depois. No dia seguinte, o editor me cobrou porque eu não tinha a foto da agência internacional.
Um dia houve uma enchente que alagou 3 bairros na Baixada Fluminense, desabrigando umas 3000 pessoas. Naquele dia, eu tinha 3 retratos a fazer e, enquanto as coisas aconteciam na Baixada, com o jornal, o editor e eu sabendo disso, fazia os retratos calmamente na zona sul do Rio. Ao fim das fotos, o editor me instruiu para que fosse à Baixada - "a situação parece que piorou" - recuperar a história que se desenvolvia desde a madrugada. O jornal não mandou repórter. Dei sorte, encarei água da inundação até o peito, perdi um ipod molhado, fiquei absolutamente encharcado e emplaquei uma foto exclusiva na primeira página. O repórter sequer saiu da redação - apurou tudo por telefone.
Em outra vez, o jornal decidiu que não daria mais fotos comprometedoras de candidatos para não ser acusado de favorecer um dos lados da campanha. Nada fez sobre as matérias pouco equilibradas ou mesmo se preocupou em dar igual espaço aos candidatos. Os fotógrafos adoraram trabalhar em uma campanha política onde sabiam que não importa o quanto fosse boa a foto, ela não seria publicada. Foi um grande estímulo.
Em outra campanha, um dos candidatos a presidente foi atingido por uma bolinha de papel em uma caminhada num "reduto típico do partido que estava no poder" - palavras usadas à época. Fiz as fotos - do momento exatamente posterior à bolinha acertá-lo - porque passei meia hora com cotovelo do segurança do candidato no meu pescoço enquanto caminhava de costas com a máquina na altura dos olhos acompanhando o distinto. Após enviar as fotos, recebi uma ligação do editor de fotografia me cobrando fotos mais leves, que não mostrassem tanto a confusão, o turbilhão e o que de fato acontecera. O jornal achava que aquilo não tinha sido nada demais. O editor estava a 400 km de distância da história da bolinha de papel, tinha acompanhado pela tv e disse que a redação - leia-se os editores acima dele - não se impressionava com a história e queria fotos "menos do assunto". No dia seguinte o jornal publicou uma foto de um cara que sequer estava ali quando a confusão aconteceu. A minha foto, coincidentemente foi parar na capa do jornal do colega que não estava lá - as agências venderam as fotos.
Aquele foi o assunto de jornais, tvs e todos os demais veículos naquele dia e nos seguintes. No domingo à noite ainda restou ao programa de maior audiência do fim de semana convocar um perito para explicar se de fato algo pior ou apenas uma bolinha de papel havia atingido o presidenciável. De fato, o assunto era pouco importante e deveria ser publicada uma foto leve da notícia, creio hoje.
Uma vez, durante um jogo eliminatório da Copa do Mundo em que a seleção enfrentaria a Holanda, o jornal pediu que eu fizesse uma espécie de time lapse da torcida gringa em um hotel onde ela se reuniria para assistir à partida. Naquele dia, o Brasil foi eliminado e a foto da primeira página foi feita em Copacabana, no Fifa Fan Fest. Por uma agência. Eu fiz o time lapse pedido que nunca foi publicado. Ainda ouvi cobrança do editor da vez.
Na mesma copa, após um dos primeiros jogos da seleção fiz uma série de fotos dos torcedores no Fan Fest. Uma delas mostrava uma criança de uns 9 anos nos ombros do pai comemorando um gol. No dia seguinte o jornal para quem eu trabalhava deu a foto exatamente da mesma menina só que feita por uma agência. Quando perguntei porque a minha não tinha sido usada descobri que o editor que estava cuidando da primeira página tinha sido deslocado para cuidar da capa do caderno de esportes e que esqueceu as minhas fotos em um espaço que não era olhado por ninguém. O jornal no fim das contas pagou duas vezes pelo mesmo produto. Mas ninguém foi cobrado.
Em outra vez, ouvi de um editor de fotografia, ao saber que durante uma onda de ataques a ônibus do Rio, um fotógrafo do jornal conseguiu fazer fotos de um dos ônibus incendiados, que ele publicaria a foto de um leitor que tinha um coletivo pegando fogo em Botafogo: "o que importa é a Zona sul". A foto do leitor, obviamente tinha qualidade infinitamente pior e menos informação - era necessária uma legenda para saber onde tinha sido feita. Mas estava geograficamente correta. A do colega era geograficamente incorreta - tinha sido feita no subúrbio. "O que importa é a zona sul" até hoje ecoa na minha cabeça.
Em outro momento, lembro de um editor explicando ao fotógrafo que "só tem duas coberturas importantes no jornal: futebol e carnaval". O Brasil estava nos anos FHC, me lembro agora.
Nada disso me fez crer que o jornalismo é pouco relevante. Mas é muito desorganizado apesar da aparência corporativa. No entanto, tudo isto me fez ter mais certeza de que ele é o exato retrato do que se faz coletivamente dentro das redações. Todos os dias erramos. Jornalistas e fotógrafos fazem matérias e fotos péssimas e boas. Editores fazem escolhas péssimas e outras melhores. No entanto, o agregado de erros sempre parece ser sintoma dos rumos de uma profissão em que salários perdem poder de compra, não se fazem greves, diminuem as vagas de trabalho ano a ano, a circulação dos meios impressos cai e há pouca ou nenhuma crítica sobre a relevância do que é produzido - ou sobre como é produzido.
O jornalismo é a única atividade em que o homem tem certeza que não precisa mais melhorar o processo de produção, apenas precisam melhorar os profissionais.
Ser misógino - a palavra viadinho ecoa não apenas nas redações - racista, sexista, preconceituoso ou ter demofobia não é comportamento exclusivo das mesas onde é manipulada - em seu sentido mais direto - a informação que chega a cada um de nossos lares. Todos cometem erros, há ainda muito a aprender e pouco tempo.
Pode-se dizer que a imprensa é retrato da sociedade que a mantém. Se assim é, as tiragens cadentes de jornais e revistas - enquanto tendência histórica, não no ano a ano - o violento aumento do lucro de jornais com verbas publicitárias - que ora comemora-se - a segmentação da linha editorial pelo perfil do leitor - branco, dois filhos, católico, um cachorro, heterossexual - os baixos salários e a inexistência de greves - a mitologia do tio Patinhas é forte no setor e é reforçada pelos astronômicos salários de empresários do jornalismo - além do total desrespeito às leis consolidadas por Vargas nos anos 40 do século passado, talvez reflitam um pouco mais do que a sociedade em que vivamos. Talvez sejam em si retrato da sociedade em que queremos de fato viver. Ou talvez, a aparente inviabilidade econômica contraditória em que jornais hoje vivem mergulhados - mais verbas de publicidade, menos empregos e credibilidade - seja retrato de que eles, jornais, já não mais servem à sociedade que os mantém.
Em qualquer dos casos, embora ninguém possa crer no fim do jornalismo como profissão, poucos fora da redação ainda creem em sua proposta e no seu compromisso com o mundo em que existe ao seu redor. Não foram os protestos de junho do ano passado que trouxeram essa sensação. Não foi a internet - que até hoje os empresários lutam para dominar. Foram 30 anos de concentração de profissionais, salários e atenção em um grupo muito pequeno de empresas. Se apenas seguiu-se a tendência, não se sabe. Sabe-se que a tendência tem reflexos nefastos sobre a profissão e a carreira.
E sobre a credibilidade da profissão junto ao leitor.
Outra vez antes de sair para uma pauta de economia fui avisado pelo editor da vez que não devia fotografar pretos: sabe como é o jornal, né? Aquele era o jornal das esquerdas do país.
Um dia, em um ano de eleição, o editor me pediu para ir para a rua fazer fotos de militantes agitando bandeiras dos partidos. Quando voltei, ele reclamou que eu não tinha armado uma foto com militantes de vários partidos no mesmo local - eles estavam separados.
Em outro dia em um jornal, após a queda de um avião, recebi um e-mail da então chefe me dizendo que não precisava fazer as fotos dos parentes das vítimas chorando na janelas do aeroporto, que deveria tentar fazer retratos identificados de cada um deles pois o jornal iria usá-los. De fato, o jornal devia ser a Caras e não o maior jornal do País. E de fato seria ok em uma tragédia onde morreram 144 pessoas ficar buscando nome e sobrenome de um número gigantesco de parentes a fim de que o jornal fizesse seu álbum de figurinhas.
Em outra vez, o editor da revista de SP para quem eu frilava me ligou reclamando das fotos para uma matéria sobre sono. Ele disse que os personagens das fotos - entrevistados por telefone por um repórter - pareciam "pobres" e perguntou porque eu não desisti da foto já que eles não eram o "perfil" da publicação. Respondi qualquer coisa e nunca mais trabalhei para eles.
Em outra ocasião, fotografei um escritor e na volta à redação conversei com a chefe que me disse que era "bastante amiga" do camarada. Em muitas outras vezes na volta à redação após fotografar outra pessoa, aquele mesmo chefe me confirmaria "que era bastante amigo" de cada fulano que eu tinha fotografado. Aparentemente, o jornal tinha um quê de facebook numa época em que a rede social sequer sonhava em aportar aqui.
Em outra vez, um editor, no meio de uma operação policial bastante tensa, me ligou e pediu que eu saísse do local onde estava para procurar um camarada que tinha levado três tiros e provavelmente morria em algum dos hospitais da região. Naquele dia, eu era o único fotógrafo do jornal naquela favela. Assim, no dia seguinte, a foto da primeira página era a de uma agência internacional - aconteceu uma hora depois de eu ter sido deslocado para passar 2 horas na porta do hospital tentando uma entrevista com um camarada que tinha levado no mínimo 3 tiros. Ele sairia do hospital ou morreria uma semana depois. No dia seguinte, o editor me cobrou porque eu não tinha a foto da agência internacional.
Um dia houve uma enchente que alagou 3 bairros na Baixada Fluminense, desabrigando umas 3000 pessoas. Naquele dia, eu tinha 3 retratos a fazer e, enquanto as coisas aconteciam na Baixada, com o jornal, o editor e eu sabendo disso, fazia os retratos calmamente na zona sul do Rio. Ao fim das fotos, o editor me instruiu para que fosse à Baixada - "a situação parece que piorou" - recuperar a história que se desenvolvia desde a madrugada. O jornal não mandou repórter. Dei sorte, encarei água da inundação até o peito, perdi um ipod molhado, fiquei absolutamente encharcado e emplaquei uma foto exclusiva na primeira página. O repórter sequer saiu da redação - apurou tudo por telefone.
Em outra vez, o jornal decidiu que não daria mais fotos comprometedoras de candidatos para não ser acusado de favorecer um dos lados da campanha. Nada fez sobre as matérias pouco equilibradas ou mesmo se preocupou em dar igual espaço aos candidatos. Os fotógrafos adoraram trabalhar em uma campanha política onde sabiam que não importa o quanto fosse boa a foto, ela não seria publicada. Foi um grande estímulo.
Em outra campanha, um dos candidatos a presidente foi atingido por uma bolinha de papel em uma caminhada num "reduto típico do partido que estava no poder" - palavras usadas à época. Fiz as fotos - do momento exatamente posterior à bolinha acertá-lo - porque passei meia hora com cotovelo do segurança do candidato no meu pescoço enquanto caminhava de costas com a máquina na altura dos olhos acompanhando o distinto. Após enviar as fotos, recebi uma ligação do editor de fotografia me cobrando fotos mais leves, que não mostrassem tanto a confusão, o turbilhão e o que de fato acontecera. O jornal achava que aquilo não tinha sido nada demais. O editor estava a 400 km de distância da história da bolinha de papel, tinha acompanhado pela tv e disse que a redação - leia-se os editores acima dele - não se impressionava com a história e queria fotos "menos do assunto". No dia seguinte o jornal publicou uma foto de um cara que sequer estava ali quando a confusão aconteceu. A minha foto, coincidentemente foi parar na capa do jornal do colega que não estava lá - as agências venderam as fotos.
Aquele foi o assunto de jornais, tvs e todos os demais veículos naquele dia e nos seguintes. No domingo à noite ainda restou ao programa de maior audiência do fim de semana convocar um perito para explicar se de fato algo pior ou apenas uma bolinha de papel havia atingido o presidenciável. De fato, o assunto era pouco importante e deveria ser publicada uma foto leve da notícia, creio hoje.
Uma vez, durante um jogo eliminatório da Copa do Mundo em que a seleção enfrentaria a Holanda, o jornal pediu que eu fizesse uma espécie de time lapse da torcida gringa em um hotel onde ela se reuniria para assistir à partida. Naquele dia, o Brasil foi eliminado e a foto da primeira página foi feita em Copacabana, no Fifa Fan Fest. Por uma agência. Eu fiz o time lapse pedido que nunca foi publicado. Ainda ouvi cobrança do editor da vez.
Na mesma copa, após um dos primeiros jogos da seleção fiz uma série de fotos dos torcedores no Fan Fest. Uma delas mostrava uma criança de uns 9 anos nos ombros do pai comemorando um gol. No dia seguinte o jornal para quem eu trabalhava deu a foto exatamente da mesma menina só que feita por uma agência. Quando perguntei porque a minha não tinha sido usada descobri que o editor que estava cuidando da primeira página tinha sido deslocado para cuidar da capa do caderno de esportes e que esqueceu as minhas fotos em um espaço que não era olhado por ninguém. O jornal no fim das contas pagou duas vezes pelo mesmo produto. Mas ninguém foi cobrado.
Em outra vez, ouvi de um editor de fotografia, ao saber que durante uma onda de ataques a ônibus do Rio, um fotógrafo do jornal conseguiu fazer fotos de um dos ônibus incendiados, que ele publicaria a foto de um leitor que tinha um coletivo pegando fogo em Botafogo: "o que importa é a Zona sul". A foto do leitor, obviamente tinha qualidade infinitamente pior e menos informação - era necessária uma legenda para saber onde tinha sido feita. Mas estava geograficamente correta. A do colega era geograficamente incorreta - tinha sido feita no subúrbio. "O que importa é a zona sul" até hoje ecoa na minha cabeça.
Em outro momento, lembro de um editor explicando ao fotógrafo que "só tem duas coberturas importantes no jornal: futebol e carnaval". O Brasil estava nos anos FHC, me lembro agora.
Nada disso me fez crer que o jornalismo é pouco relevante. Mas é muito desorganizado apesar da aparência corporativa. No entanto, tudo isto me fez ter mais certeza de que ele é o exato retrato do que se faz coletivamente dentro das redações. Todos os dias erramos. Jornalistas e fotógrafos fazem matérias e fotos péssimas e boas. Editores fazem escolhas péssimas e outras melhores. No entanto, o agregado de erros sempre parece ser sintoma dos rumos de uma profissão em que salários perdem poder de compra, não se fazem greves, diminuem as vagas de trabalho ano a ano, a circulação dos meios impressos cai e há pouca ou nenhuma crítica sobre a relevância do que é produzido - ou sobre como é produzido.
O jornalismo é a única atividade em que o homem tem certeza que não precisa mais melhorar o processo de produção, apenas precisam melhorar os profissionais.
Ser misógino - a palavra viadinho ecoa não apenas nas redações - racista, sexista, preconceituoso ou ter demofobia não é comportamento exclusivo das mesas onde é manipulada - em seu sentido mais direto - a informação que chega a cada um de nossos lares. Todos cometem erros, há ainda muito a aprender e pouco tempo.
Pode-se dizer que a imprensa é retrato da sociedade que a mantém. Se assim é, as tiragens cadentes de jornais e revistas - enquanto tendência histórica, não no ano a ano - o violento aumento do lucro de jornais com verbas publicitárias - que ora comemora-se - a segmentação da linha editorial pelo perfil do leitor - branco, dois filhos, católico, um cachorro, heterossexual - os baixos salários e a inexistência de greves - a mitologia do tio Patinhas é forte no setor e é reforçada pelos astronômicos salários de empresários do jornalismo - além do total desrespeito às leis consolidadas por Vargas nos anos 40 do século passado, talvez reflitam um pouco mais do que a sociedade em que vivamos. Talvez sejam em si retrato da sociedade em que queremos de fato viver. Ou talvez, a aparente inviabilidade econômica contraditória em que jornais hoje vivem mergulhados - mais verbas de publicidade, menos empregos e credibilidade - seja retrato de que eles, jornais, já não mais servem à sociedade que os mantém.
Em qualquer dos casos, embora ninguém possa crer no fim do jornalismo como profissão, poucos fora da redação ainda creem em sua proposta e no seu compromisso com o mundo em que existe ao seu redor. Não foram os protestos de junho do ano passado que trouxeram essa sensação. Não foi a internet - que até hoje os empresários lutam para dominar. Foram 30 anos de concentração de profissionais, salários e atenção em um grupo muito pequeno de empresas. Se apenas seguiu-se a tendência, não se sabe. Sabe-se que a tendência tem reflexos nefastos sobre a profissão e a carreira.
E sobre a credibilidade da profissão junto ao leitor.
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